GAUDEO: Uma Vida Sob Vela — Capitão Nicholas Brown aos 93

Algumas entrevistas parecem uma simples conversa. Outras parecem abrir um diário de bordo que o próprio tempo preservou cuidadosamente. Esta pertence ao segundo tipo.Para a primeira entrevista publicada no Captain’s Journal da Eberths.com, temos a honra de receber o Capitão Nicholas Brown, hoje com 93 anos, um homem cuja vida foi moldada pelo vento, pela disciplina, pela arte da marinharia e pelo ritmo constante do mar. Desde as lições de vela na infância em Fishers Island até ao comando de navios da Marinha dos Estados Unidos, a história do Capitão Brown não é apenas rica em experiência — é rica em perspetiva.

Nesta troca rara e preciosa, ele partilha memórias dos seus primeiros dias a aprender a navegar, dos mentores que lhe ensinaram verdadeira marinharia e das viagens que ainda brilham com maior intensidade na sua mente. Com a clareza de um capitão experiente e a humildade de um homem que respeita a natureza acima de tudo, fala sobre liderança, trabalho de equipa, risco e as lições mais profundas que o oceano ensina ao longo de uma vida.

Isto não é simplesmente uma entrevista. É um legado registado em palavras — guiado por um lema pessoal que resume perfeitamente o seu espírito:

Entrevista:

1. Como se apaixonou pelo mar pela primeira vez e que idade tinha quando começou?
As férias de verão da nossa família eram passadas em Fishers Island, no estado de Nova Iorque, mesmo em frente a New London, Connecticut. Havia três desportos que dominavam a ilha: golfe, ténis e vela. Eu escolhi a vela. E, aos 9 anos, fiz aulas e depois comecei a competir na embarcação da classe local, um pesado catboat de 10 pés com deriva central, em Hay Harbor, um local fechado semelhante a uma lagoa. Excelente instrução e difícil de entrar em sarilhos.

2. Quem foi o seu primeiro mentor na vida marítima e o que lhe ensinou?
Como acabei de referir, o instrutor de Hay Harbor. Mas em 1949, quando eu tinha 17 anos, o meu pai mandou construir o yawl Sparkman & Stephens BOLERO. O seu capitão profissional, Fred Lawton, foi quem realmente me ensinou marinharia de convés. Depois, um ano mais tarde, tive um sloop de quilha Quincy-Adams de 17 pés, o veleiro de regata da classe Fishers Island. Tinha pessoas mais velhas como tripulação e aprendi a competir com elas.

3. Qual foi a viagem mais inesquecível e porquê?
Nos anos 80, aluguei um sloop Dufour de 48 pés nas águas do Taiti com bons amigos. Isso combinou vento excelente para velejar, mares límpidos para nadar e fazer snorkeling, e lugares interessantes e exóticos para visitar em terra.

4. Qual foi o maior desafio que enfrentou como marinheiro?
Manter-me acordado durante as vigias noturnas! Tenho a sorte de não ser muito suscetível ao enjoo do mar.

5. Que destino ou porto ainda lhe parece especial hoje?
Saint-Tropez, no Mediterrâneo. O porto interior é rodeado por iates magníficos, tanto à vela como a motor, mas é necessariamente limitado em tamanho. Depois, atracadas para além do porto fechado, há embarcações realmente impressionantes. Claro que os bares e as boutiques junto à costa também tornam Saint-Tropez memorável.

6. O que faz um grande capitão?
Entrelaçar duas correntes: primeiro, competência profissional — conhecer e manobrar o seu iate, avaliar riscos, encontrar soluções alternativas para problemas cuja resposta não é imediatamente evidente. Mas também a capacidade de formar uma tripulação que realmente queira unir-se para operar o iate corretamente — e fazê-lo através de inspiração, não de imposição.

7. Aos 93 anos, o que lhe ensinou o mar sobre a vida?
Acima de tudo, respeito pela Natureza. Mas também, a avaliar o risco. “Nada arriscado, nada ganho” é um bom princípio. Mas o mar pode ser cruel; o risco é inerente a todas as manobras. No entanto, a satisfação está em completar a viagem conforme planeado e, ao mesmo tempo, admirar as múltiplas belezas do mundo marítimo.

8. Acredita que o mar moldou o seu caráter? Como?
Não foi o mar, em si, mas a necessidade de cumprir uma tarefa com as suas dificuldades e oportunidades, trabalhando em conjunto com outros. Não sou um navegador solitário; operar um iate de bom tamanho exige trabalho de equipa. Primeiro na vela civil, depois como oficial de linha da Marinha dos EUA, desenvolvi uma estratégia de vida: organizar, delegar e supervisionar. Continuo a aplicá-la ainda hoje nas minhas responsabilidades civis. Além disso, quase tudo se consegue melhor com pessoas. A motivação e a orientação delas são uma tarefa fundamental.

9. O que significa “liberdade” para si como marinheiro?
Francamente, não muito. Alguns poderiam pensar que é a liberdade de não ter de tirar neve ou alimentar o gato. Mas um marinheiro definitivamente NÃO é livre. Está condicionado pela força da Natureza, para começar. Depois há muitas outras limitações: orçamento, eficiência, competição em regatas, etc. Considero que todos vivemos sob limitações, embora variem conforme as nossas situações.

10. Qual foi o momento de que mais se orgulha na sua vida — não apenas na carreira?
Comandar o USS TALBOT (DEG 4). Tinha um sistema de armas avançado que não funcionou como esperado logo de início. Eu e a minha tripulação resolvemos isso. A nossa missão nas Caraíbas foi um modelo de eficiência. E tive uma tripulação feliz e produtiva. No lado pessoal, tenho imenso orgulho nos meus três filhos, e também orgulho por ter escolhido a mãe deles.

11. Se pudesse fazer uma última viagem hoje, para onde iria?
Voltaria a mostrar a bandeira no Mar Interior do Japão. Fui comandante do USS WIDGEON MSC-8 nos anos 60. É uma área fascinante onde (pelo menos no meu tempo) muito podia ser feito para fortalecer relações internacionais, enquanto se desfrutava da história e da economia complexas dessa região central do Japão.

12. Qual é o seu lema pessoal?
O da minha família: GAUDEO (“Eu rejo-me”). Pessoas sombrias não prosperam.

Nicholas Brown — 03-04-2026

Aos 93 anos, o Capitão Brown fala sem exageros e sem nostalgia pela nostalgia. As suas recordações são diretas, ponderadas e notavelmente claras — tal como a mentalidade que define marinheiros experientes.

Ao longo da entrevista, um tema destacou-se de forma consistente: o mar não recompensa apenas o entusiasmo. Recompensa a preparação, a disciplina e o trabalho de equipa. As reflexões do Capitão Brown sobre marinharia, liderança e risco não foram apresentadas como filosofias abstratas, mas como verdades práticas forjadas por décadas de navegação e comando naval. As suas palavras sublinham a diferença entre admirar o oceano e respeitá-lo verdadeiramente — uma distinção que só a experiência pode ensinar.

Esta entrevista foi conduzida por Albert de Craiciu, para quem o mar representa muito mais do que viagem ou lazer. Para ele, é um símbolo de independência, caráter e resiliência humana. Estes são precisamente os princípios que orientam a filosofia da Eberths.com. O Captain’s Journal foi criado para preservar vozes marítimas autênticas — capitães, marinheiros e profissionais cujas experiências merecem ser registadas com rigor e respeito. Não como entretenimento, mas como testemunho.

O lema pessoal do Capitão Brown, GAUDEO (“Eu rejo-me”), capta perfeitamente o espírito desta entrevista. Reflete uma capacidade de encontrar significado não apenas nos destinos alcançados, mas também nos desafios enfrentados e nos deveres cumpridos. É a voz de um homem que navegou tanto o oceano como a responsabilidade com a mesma seriedade — e que ainda hoje fala com gratidão.

Com esta primeira entrada, a Eberths.com abre o seu Captain’s Journal com o padrão que pretende manter: histórias reais, verdadeira marinharia e vidas moldadas pelo mar.

Porque na Eberths.com não celebramos apenas a vela.

Celebramos os marinheiros.